segunda-feira, 17 de maio de 2010

Minha FICTÍCIA Academia Militar

O texto é de um Coronel da Reserva do Exército.
Rio de Janeiro, 26/05/09.

Esta semana recebi de vários amigos e-mail comentando que já estariam avançados os entendimentos para "corrigir distorções" no sistema previdenciário dos militares... Entre outras medidas... “Previstas estaria a não consideração, no tempo de efetivo serviço, do chamado "tempo fictício" (que pérola!!!), que seria o tempo passado em escolas preparatórias ou academias militares.

Realmente, não houve nada mais FICTÍCIO em minha vida dos que os FICTÍCIOS quatro anos passados dentro dos muros da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras), em regime de FICTÍCIO internato. E olhem que eu era civil antes de entrar na AMAN. Imagino como devem estar se sentindo os contemporâneos meus que passaram mais três FICTÍCIOS anos de sacrifício na EspCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército, freqüentadas por aqueles que pretendem ir para a AMAN – equivalente ao Ensino Médio).

Ainda me recordo das FICTÍCIAS noites, no primeiro ano, em que era acordado às duas da manhã para assumir o FICTÍCIO plantão das duas as quatro, que sempre me era reservado por ser muito moderno (leia-se: civil, no meio de oriundos da PREP e dos CM, além dos Oficiais R/2, sargentos, cabos e soldados que conseguiram entrar na AMAN) (*).

Não há como esquecer as FICTÍCIAS semanas no campo, rastejando na lama, passando por baixo de tiros e lançando granadas, além do choque e da tristeza pela eventual notícia da FICTÍCIA morte de companheiros ou de instrutores em exercícios com explosivos e munição reais. Realmente, tudo muito FICTÍCIO.

E as semanas dedicadas às "Instruções Especiais", então?... Querem coisa mais FICTÍCIA do que andar quilômetros com um "Fuzil Aparentemente Leve" e uma mochila nas costas fazendo patrulha; subir e descer montanhas, no frio; queimar as palmas das mãos no rapel do montanhismo; ou andar 80 km descalço, com fome e com frio, com uma companhia de paraquedistas (PQD) te perseguindo, a cavalo, morro acima, numa simulação de fuga e evasão? Realmente, aquele ninho de cobras que havia no buraco em que eu e alguns amigos nos atiramos para fugir da perseguição dos PQD era completamente FICTÍCIO.

Não podemos esquecer, é claro, que junto com toda aquela FICTÍCIA ralação, serviços de escala, formaturas e revistas de uniforme, ainda havia as provas de cálculo, de química, de física, de história, de geografia, de topografia, de matérias militares e de educação física.

Cabe lembrar, ainda, o que talvez fosse o pior de tudo: a FICTÍCIA saudade de casa ou das namoradas deixadas longe, principalmente pelos FICTÍCIOS laranjeiras (**), que ficavam, por vezes, o ano todo sem ir ver a família, no norte, no nordeste, no centro-oeste ou no sul do país, simplesmente porque não havia dinheiro para a passagem, ou porque as distâncias eram tão grandes e as férias de meio de ano tão curtas, que não haveria como ir e voltar a tempo para o início do segundo semestre. Eu que morava a duas horas e meia de Resende, lembro-me, com pena, dos amigos que, terminada a semana e as indefectíveis (e FICTÍCIAS), palestras e revistas de uniforme do sábado de manhã, não teriam outra alternativa senão encarar o FICTÍCIO fim-de-semana na AMAN, comendo "bala Juquinha" na seção de cinema acadêmico e enchendo a cara no "Bola Sete".

Tudo muito "similar" à vida de qualquer outro universitário do país. Tudo muito FICTÍCIO.

Realmente, os nossos líderes talvez tenham razão: foi tudo muito FICTÍCIO. O serviço militar prestado durante quatro (ou sete anos, por alguns) foi FICTÍCIO, a saudade e, muitas vezes, o sentimento de solidão de um jovem de dezoito anos, causado não só pelo afastamento de casa, como também pela imensidão daquelas instalações, foi coisa à toa, FICTÍCIA. As marchas diurnas e noturnas e as noites em claro nos exercícios de campo ou estudando - foi tudo FICTÍCIO. Só não é FICTÍCIO o orgulho de, por lá, ter passado.

(*) Ou: o que tem menos tempo de serviço. Ou: entre os pares, o que se forma nas Academias, com notas menores – nesse caso, a modernidade se dá pela classificação, das notas maiores (mais antigos) para as menores (mais modernos)).
(**) "LARANJEIRA" no meio militar é usado para qualificar os que permanecem no quartel e nos alojamentos militares, em feriados e dias de folga, muitas vezes por residirem distante e não disporem de meios para retornar aos lares, nos curtos períodos de feriados, de folgas ou de férias nas escolas de formação militar).

Um comentário:

maria disse...

bom, sou militar e gostaria de saber se vc pode me ajudar num assunto. gostaria de saber a origem da palavra laranjeira no meio militar. sei que laranjeira eh quemm mora no quartel, porem nao sei o porque desse nome.tks