terça-feira, 5 de agosto de 2008

VERGONHA E INDIGNAÇÃO NA AÇÃO DA PF EM RORAIMA - O QUE NINGUÉM VIU!

Vergonha e indignação! Não há brasileiro que possa ficar insensível a este vídeo postado no You Tube sobre a operação da Polícia Federal na Raposa da Serra do Sol, invadindo propriedades privadas, confessadamente, pela boca de seus próprios agentes, como se pode ouvir - e ver - no vídeo, sem mandado judicial. Um dos policiais esclarece à população: “nós estamos cumprindo ordens do presidente da república” e completa, como ‘entre a cruz e a espada’: “a hora de escolher nossos representantes é nas eleições”. Não contaram para ele e, naturalmente, ele não preocupou em ler nos jornais de todo o país, nem na internet, a escandalosa rejeição do povo de Roraima ao presidente eleito manifestada, nas urnas, na eleição passada. Por lá não passou perto nenhum ‘jeitinho eletrônico’ e nenhum ‘malabarismo eleitoreiro’.

A população revoltada faz verdadeiros discursos contra o governo e contra a ação ilegal e antipatriótica da PF. Uma senhora diz até que gostaria de poder “comer um pedacinho do presidente da república assado”. Não se vê gente desinformada naquela região. Como se configura na maior parte do país, há brasileiros esclarecidos de sobra, ou, no mínimo, sensíveis à realidade e às más intenções da organização político-ideológica que tomou conta do país. Por essas e outras que um artigo que escrevi – O que será que Aconteceu? -, logo após às últimas eleições presidenciais permanece eterno em seus questionamentos.

O vídeo foi divulgado, também, pela coluna de Reinaldo Azevedo, de 3 de agosto. Nos comentários de introdução, o jornalista diz que “Tarso Genro, o ministro da Justiça que quer rever a Lei da Anistia para punir apenas aqueles que ele considera seus adversários”... “é também o chefe da Polícia Federal e comandou pessoalmente a operação para expulsar os arrozeiros da reserva Raposa Serra do Sol”... “Fica claro, a cada dia, que (Tarso) é um perigo para a democracia. Resta evidente que ele se aproveita das licenças concedidas pelo estado de direito para transgredi-lo e para turvar a democracia”... “Como é usual no Brasil, quem produz um alfinete que seja corre o risco de ir parar atrás das grades”.

Reinaldo destaca a seguinte passagem: “a invasão da Fazenda Canadá (a partir de 6min31s)” na qual os agentes da PF chegam e travam, com o proprietário, o diálogo destacado logo abaixo, que o jornalista classifica de “por demais eloqüente”, dispensando “grandes considerações”. Reinaldo Azevedo está coberto de razão e conclui, com mais razão ainda, que “Este é o estado policial de Tarso Genro, o trotskista surtado. É mais um abuso de autoridade patrocinado pelo ministro da Justiça”.

ASSISTAM AO VÍDEO:

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Laços explosivos - Os Tentáculos das Farc no Brasil

VEJA, 16 de março de 2005
Policarpo Junior

Documentos secretos guardados nos arquivos da Abin informam que a narcoguerrilha colombiana Farc deu 5 milhões de dólares a candidatospetistas em 2002.
Nos arquivos da Agência Brasileira de Inteligência em Brasília há um conjunto de documentos cujo conteúdo é explosivo. Os papéis, guardados no centro de documentação da Abin, mostram ligações das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com militantes petistas. O principal documento nos arquivos foi datado de 25 de abril de 2002, está catalogado com o número 0095/3100 e recebeu a classificação de "secreto". Em apenas uma folha e dividido em três parágrafos, esse documento informa que, no dia 13 de abril de 2002, um grupo de esquerdistas solidários com as Farc promoveu uma reunião político-festiva numa chácara nos arredores de Brasília. Na reunião, que teve a presença de cerca de trinta pessoas, durou mais de seis horas e acabou com um animado forró, o padre Olivério Medina, que atua como uma espécie de embaixador das Farc no Brasil, fez um anúncio pecuniário. Disse aos presentes que sua organização guerrilheira estava fazendo uma doação de 5 milhões de dólares para a campanha eleitoral de candidatos petistas de sua predileção. A notícia foi recebida com aplausos pela platéia. Faltavam então menos de seis meses para a eleição.

Um agente da Abin, infiltrado na reunião, ouviu tudo, fez um informe a seus chefes, e assim chegou à Abin a primeira notícia de que as relações entre militantes esquerdistas, alguns deles petistas, e as Farc podem ter ultrapassado a mera simpatia ideológica e chegado ao pantanoso terreno financeiro.


Sob a condição de não reproduzi-los nas páginas da revista, VEJA teve acesso a seis documentos da pasta que trata das relações entre as Farc e petistas simpatizantes do movimento. Dos seis documentos, três fazem menção explícita à doação de 5 milhões de dólares. Num deles, está descrita a forma de pagamento: o dinheiro sairia de Trinidad e Tobago, um pequeno país do Caribe, e chegaria às mãos de cerca de 300 pequenos empresários brasileiros simpáticos ao PT, que, por sua vez, fariam contribuições aos comitês regionais do partido como se os recursos lhes pertencessem. Em outro documento, aparece a informação de que o acerto financeiro fora celebrado entre membros do PT e das Farc durante uma reunião realizada numa fazenda no Pantanal Mato-Grossense – e que os encontros de cúpula seriam articulados com a ajuda de Maria das Graças da Silva, uma funcionária da Câmara dos Deputados em Brasília que já militou no PC do B e seria amiga muito próxima do "comandante Maurício", apontado como a maior autoridade das Farc no Brasil. Ao contrário da doação financeira e do mecanismo do pagamento, que são descritos em detalhes nos documentos da Abin, a menção à reunião no Pantanal aparece seca e sem detalhes.


"Conheço ele, sim, mas e daí? Não articulei encontro nenhum", garante a funcionária Maria das Graças, que diz ignorar qualquer reunião no Pantanal. Nas últimas cinco semanas, VEJA investigou a veracidade das informações arquivadas na sede da Abin. Será que houve mesmo um encontro numa chácara em Brasília? O encontro teve a presença de representantes das Farc? Falou-se ali na doação de 5 milhões de dólares? Para responder a essas perguntas, VEJA localizou o agente da Abin que se infiltrou na reunião das Farc e ouviu outros dois funcionários da agência que tiveram contato com a investigação, além de procurar os esquerdistas que foram ao encontro. A apuração comprovou a reunião, o local, a data e os personagens. Só não encontrou indícios suficientemente sólidos de que os 5 milhões de dólares tenham realmente saído das Farc e chegado aos cofres do PT. A doação financeira é dada como realizada pelos documentos da Abin, mas a investigação de VEJA não avançou um milímetro nesse particular. Pode ter sido apenas uma bravata do padre Olivério Medina, codinome de Francisco Antônio Cadenas Colazzos, para alegrar seus convivas esquerdistas? Pode. Além da convocação manifestada nos documentos da Abin, a revista não encontrou elementos consistentes para que se faça uma afirmação sobre esse aspecto.


Os contatos políticos entre petistas e guerrilheiros das Farc são antigos. Começaram em 1990, quando o PT realizou um debate com partidos políticos e organizações sociais da América Latina e do Caribe para discutir os efeitos da queda do Muro de Berlim. De lá para cá, as relações se intensificaram, principalmente por meio das correntes esquerdistas do PT, como a Democracia Socialista, cuja estrela mais conhecida é o ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário. Mesmo os quadros mais moderados do PT demonstram uma certa simpatia pelas Farc. Como instituição, porém, o partido há muito tempo quer distância das Farc. "A guerrilha representa tudo o que nós abominamos em termos de política. Não se pode esquecer que o PT já nasceu em oposição à luta armada. O governo do presidente Lula tem as melhores relações com o governo constituído da Colômbia e apóia o presidente Álvaro Uribe", diz o senador Aloizio Mercadante. E completa: "Se essa doação existiu, o que não acredito, ela não foi feita ao PT, mas a indivíduos que se dizem ligados ao partido. Se eles forem identificados e forem do partido, serão expulsos".

Em virtude do passado de companheirismo com as Farc, a cúpula do PT, ainda antes das eleições presidenciais de 2002, sentiu que seria adequado tranqüilizar o governo da Colômbia em relação a uma possível eleição de Lula. O hoje ministro José Dirceu, da Casa Civil, procurou a embaixadora colombiana em Brasília para avisar que, se Lula fosse eleito, a política de seu governo em relação às Farc seria a do Estado brasileiro – e não a da ala esquerda do PT. A palavra tem sido cumprida, embora o governo brasileiro insista em considerar oficialmente as Farc como um grupo guerrilheiro – e legítimo, portanto –, recusando-se a reconhecer o que elas realmente são. Ou seja: um conluio oportunista de guerrilheiros, terroristas e narcotraficantes.


Considerando-se o currículo das Farc, a história também faz sentido lógico. Fundadas na década de 60, as Farc começaram a se envolver com o tráfico na década de 90, quando os maiores traficantes colombianos passaram a remunerar os guerrilheiros em troca de segurança armada para os plantadores de coca (veja reportagem ABAIXO). Com o envolvimento direto com o tráfico, a organização acabou tornando-se financeiramente poderosa. Sabe-se que os cartéis colombianos da cocaína usam as ilhas de Trinidad e Tobago como um entreposto, estocando ali a droga que embarcam para a Europa. Por coincidência, é de Trinidad e Tobago que o dinheiro das Farc sairia para entrar nos cofres dos candidatos esquerdistas, conforme mostram os documentos arquivados na Abin. Apesar da verossimilhança e da aparência lógica do esquema, é vital ressaltar que, fora os registros feitos pelos espiões da Abin, não foram encontradas evidências sólidas da ajuda financeira da guerrilha da Colômbia. O padre Olivério Medina, representante das Farc no Brasil, nega. "Não houve essa ajuda financeira", disse ele a VEJA, falando de um telefone público em Brasília e encerrando o assunto sob a alegação de que, como estrangeiro, não poderia falar sobre política.

O secretário de Relações Internacionais do PT, Paulo Ferreira, encarregado dos contatos do partido com o exterior, garante que as relações petistas com a guerrilha colombiana não são amistosas. "Ao contrário. Hoje, nós temos conquistado o ódio das Farc", diz. Uma das razões é o fato de que o PT aprovou uma recomendação para que as Farc sejam barradas nos foros internacionais de discussão sobre assuntos da América Latina. "Não há interesse em manter relações com um grupo belicista que, entre outras coisas, usa métodos como o seqüestro de civis", afirma Ferreira. A posição do secretário de Relações Internacionais do PT, no entanto, não é a unanimidade do partido. Em Brasília, por exemplo, o comitê que apóia ações das Farc é integrado e dirigido por militantes do PT. "Essas ligações existem à revelia do partido. Posso dizer que são até criminosas", afirma Ferreira. Para ele, as ligações entre PT e Farc descritas nos relatórios da Abin, se existiram tal como informaram os agentes de inteligência, foram "clandestinas".


A reunião na chácara em Brasília foi uma mistura de encontro político com festa de amigos. A chácara chama-se Coração Vermelho, pertence ao sindicalista Antônio Francisco do Carmo e fica a 40 quilômetros de Brasília. O encontro começou às 11 da manhã e terminou no início da noite. Aconteceu em torno de uma mesa debaixo de árvores, para evitar que um grampo clandestino pudesse captar as conversas. No início, com todos de pé, abriu-se uma bandeira das Farc e cantou-se o hino da guerrilha. Para entrar na chácara, os participantes tinham uma senha: bater com a mão espalmada no peito. Ao meio-dia, serviu-se um churrasco, com arroz e vinagrete, cerveja e refrigerante. Um dos presentes era o vereador Leopoldo Paulino, secretário de Esportes do então prefeito de Ribeirão Preto, o hoje ministro Antonio Palocci. Pouco antes, Paulino fundara o primeiro comitê de apoio às Farc no Brasil, em Ribeirão Preto. Na chácara, exibiu-se um vídeo com a inauguração do comitê, e Paulino explicou seu funcionamento. "Não temos presidente ou diretor. Somos todos guerrilheiros ou não somos. Se somos, então todos fazem parte da luta", disse ele, conforme o relato transcrito pelo agente infiltrado da Abin. Foi aplaudido pelos presentes.

A VEJA, o vereador Leopoldo Paulino, que foi guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN) e hoje é filiado ao PSB, negou que tenha participado de qualquer reunião na chácara Coração Vermelho. Outro que esteve presente, porém, o bancário Antônio Carlos Viana, um aguerrido militante comunista, confirmou a VEJA que a reunião foi feita, que o assunto era o apoio às Farc, mas disse que ninguém falou em dólares. "Só defendemos que as Farc sejam reconhecidas como força beligerante", diz ele, que trabalha no departamento de tecnologia do Banco do Brasil. O dono da chácara, o sindicalista Antônio Francisco do Carmo, militante do velho PCB, também confirma que, em várias ocasiões, cedeu sua propriedade para encontros em que o padre Olivério Medina esteve presente. Ele ressalta, no entanto, que eram encontros festivos, e não reuniões de caráter político, nas quais nunca se mencionou financiamento da guerrilha colombiana para o PT. "Sou amigo do padre e ele já almoçou e jantou várias vezes na minha chácara", diz. É certo que a reunião na chácara, até pela baixa estatura hierárquica de seus participantes, não tomou nenhuma decisão sobre Farc, PT ou milhões de dólares.


Na chácara, a doação do dinheiro veio à tona, talvez acidentalmente, e acabou captada por um agente da Abin. O general Alberto Cardoso, então chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo tucano e da Abin, soube da reunião na Coração Vermelho com antecedência e até abortou uma operação policial que planejava invadir a chácara e prender todos os participantes. O general preferiu deixar a reunião acontecer e manter o monitoramento por meio do agente infiltrado. Com isso, conseguiu pescar uma informação valiosa: o espião da Abin gravou a reunião e, na fita cassete, que também se encontra nos arquivos da agência, o padre Olivério Medina pode ser ouvido fazendo o anúncio da doação financeira aos petistas. Depois do anúncio, numa conversa com um grupo reduzido, o padre relatou como o dinheiro entraria no Brasil. Contou que sairia de Trinidad e Tobago, passaria pelos 300 pequenos empresários e chegaria a comitês regionais petistas.


Os documentos arquivados na Abin, sucessora do velho SNI do regime militar, são célebres por seus erros e equívocos, motivados em geral pela paranóia anticomunista de seus agentes na época da ditadura. Os papéis que relatam a transação em que as Farc prometem ajuda financeira a candidatos esquerdistas no Brasil também não são imunes a erros. A trajetória dos papéis na hierarquia do serviço de inteligência sugere, porém, que as informações partiram de um espião experiente que gozava da confiança de seus superiores. Os documentos mostram que as informações ali contidas foram checadas com afinco. Um relatório elaborado por um agente de base costuma ser examinado por um analista, que avalia, reúne, compara informações e sistematiza-as de acordo com o objetivo de cada missão – ou manda tudo para o lixo.

O segundo filtro sobre a qualidade de uma informação é feito por um diretor de departamento, que recebe informações de outros setores e, em tese, está mais bem equipado para avaliar o conjunto das informações. Depois, tudo ainda vai ao diretor-geral da agência, que avalia se o assunto é ou não relevante e se deve ou não ser levado ao conhecimento do presidente da República. O documento 0095/3100, de 25 de abril de 2002, o principal entre todos os que narram as ligações entre militantes petistas e as Farc, passou por todas essas etapas e acabou com um carimbo de "secreto". Isso significa que suas informações eram críveis e seu conteúdo tinha consistência suficiente para ser levado ao conhecimento do presidente da República.
(LER TEXTO SOBRE POSICIONAMENTO DA ABIN E DO GAB. DE SEG. INSTITUCIONAL, MAIS ABAIXO, NO FINAL DAS MATÉRIAS DA VEJA)


A primeira suspeita da generosidade financeira das Farc com esquerdistas brasileiros apareceu há dois anos, quando o deputado Alberto Fraga, hoje filiado ao PTB, contou que agentes da Abin lhe narraram a história. O deputado fez um discurso-denúncia sobre o assunto na tribuna da Câmara e tentou em vão abrir uma CPI. Não conseguiu recolher o número necessário de assinaturas de deputados. Sua denúncia não recebeu muito crédito, mas o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT paulista, procurou-o. Disse que estava incumbido pelo governo de processar Fraga e queria saber se o deputado tinha provas da denúncia que fizera. Fraga blefou. "Eu disse que podia até apresentar testemunhas em juízo." Diante disso, Greenhalgh nunca mais tocou no assunto, segundo Fraga. "Eu só falei para que ele tomasse cuidado com aquela história. Disse que ele poderia acabar sendo processado porque a história não era verdadeira", desmente Greenhalgh. "Eu não estava falando em nome do governo."
Quando Fraga fez a denúncia, a Abin chegou a abrir uma investigação interna para descobrir quem era o responsável pelo vazamento. A apuração encontrou um responsável. O resultado está arquivado no Departamento de Inteligência.


As suspeitas em torno de ligações do PT com as Farc costumam servir para manipulações políticas, com o objetivo de envolver o partido com um grupo terrorista. Na campanha presidencial em 2002, por exemplo, o programa eleitoral do então candidato tucano, José Serra, chegou a perder preciosos minutos em direito de resposta por ter veiculado a acusação segundo a qual o PT teria ligações clandestinas com as Farc. O fato que agora vem a público, porém, está despido de motivações políticas – foi apurado por uma agência oficial, ficou nos arquivos e, hoje, tais arquivos estão sob o comando do investigado. Na quarta-feira passada, VEJA pediu esclarecimentos ao Gabinete de Segurança Institucional, abaixo do qual fica a Abin. Recebeu a resposta oficial na sexta-feira. Ei-la: "O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República informa que não vai se pronunciar a respeito". Quatro horas depois, o GSI emitiu outra resposta. Dizia com um tortuoso malabarismo verbal que a Abin investigou as Farc – o que, no fundo, não quer dizer nada. Seria uma investigação histórica medir a dimensão dos tentáculos das Farc no Brasil e o nível hierárquico em que eles chegaram a penetrar no partido que detém o Poder Executivo.

VEJA OUTRO TRECHO ESCLARECEDOR SOBRE O POSICIONAMENTO DA DIREÇÃO DA ABIN NESTE CASO, LOGO MAIS ABAIXO.
Uma mancha na América Latina
Recursos das Farc vêm do narcotráfico e dos seqüestros

A Abin descobriu que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deram dinheiro para militantes petistas. Mas de onde vem o dinheiro das Farc? A maior parte dos recursos do maior grupo guerrilheiro colombiano é obtida por meio de três atividades criminosas – seqüestros, tráfico de drogas e roubo de gado. Entre 1997 e 2004, 4.734 pessoas passaram pelos cativeiros mantidos pelas Farc em seus acampamentos no interior do país. Só no ano passado foram 700 cativos. Os pagamentos de resgate somaram 37,5 milhões de dólares apenas em 2003, de acordo com as últimas estimativas oficiais disponíveis. No mesmo ano, a guerrilha lucrou 31,8 milhões de dólares com o roubo de mais de 100.000 cabeças de gado. Especialistas calculam que as Farc controlam 30% do mercado de distribuição e exportação de cocaína na Colômbia. Em termos monetários, significa um faturamento anual entre 600 milhões e 800 milhões de dólares.


O seqüestro é uma atividade antiga da guerrilha colombiana. O envolvimento com o narcotráfico é mais recente. Começou no início da década de 90, quando uma ofensiva para erradicar as plantações de folha de coca na Bolívia e no Peru levou os cartéis colombianos a se associar com a guerrilha para o plantio nas áreas rurais sob controle dos esquerdistas. O negócio fez uma tremenda diferença. De guerrilheiros pobres, que tinham perdido a mesada de Cuba, as Farc se tornaram milionárias. Para administrarem o ritmo acelerado de sua indústria de seqüestros, as Farc adotam um procedimento padronizado. O valor do resgate é tabelado de acordo com a região do país e varia entre 5.000 e 15.000 dólares, para prisioneiros de classe média. No caso de grandes fazendeiros e funcionários de empresas estrangeiras pagam-se valores bem maiores. A guerrilha pressiona os familiares para que o pagamento seja efetuado em, no máximo, uma semana. A partir desse prazo, são informados de que a vida do refém corre risco.


Situação ainda mais dramática é a daqueles seqüestrados por motivos políticos. Nesses casos, a guerrilha não aceita o pagamento de resgate. Os cativos servem para ser trocados por guerrilheiros presos em negociações com o governo. Hoje, 64 reféns estão nessa situação. São 27 políticos, 34 militares e três civis americanos. O caso mais conhecido é o da escritora e senadora Ingrid Betancourt, de 43 anos, mãe de um casal de adolescentes. Candidata à Presidência nas eleições de 2002 por um pequeno partido ambientalista, Ingrid já era uma celebridade internacional antes de ser seqüestrada pelas Farc. Sua autobiografia, Coração Enfurecido, é best-seller na França e nos Estados Unidos. Seu marido, o publicitário Juan Carlos Lecompte, largou o trabalho para seguir obsessivamente qualquer pista sobre o paradeiro da mulher. Há um mês, quando o seqüestro completou três anos, ele lançou um livro relatando os 1.100 dias de seu sofrimento. "Minha vida virou do avesso, a ponto de eu não ter idéia se Ingrid vai me reconhecer quando for solta, de tão amargo e triste que me tornei", disse Lecompte a VEJA.


O desespero é compartilhado com os familiares de outros reféns políticos. Esses familiares mantêm um programa de rádio, As Vozes do Seqüestro, no qual enviam mensagens aos parentes no cativeiro. Também se reúnem todas as semanas na Praça Bolívar, em Bogotá, para pressionar as autoridades. Apesar da mobilização, as chances de rever os parentes são cada vez menores. A guerrilha chegou a estudar a troca dos reféns por 500 guerrilheiros presos. Mas recuou depois que o governo colombiano extraditou dois chefões das Farc para os Estados Unidos, onde respondem a processo por participação no tráfico de drogas. O drama dos mortos-vivos, como esses reféns são conhecidos, ainda está longe do fim.

POSICIONAMENTO DA DIREÇÃO DA ABIN E DO GABINETE DE SEGURANÇA INSTITUCIONAL

A Revista Veja na edição de 16 de Abril de 2002, com o título "Os tentáculos da FARC no Brasil", publicou a denúncia de uma suposta doação das Farc, em 2002, para a campanha eleitoral do Presidente Lula e do PT. Segundo o artigo da revista, o representante das FARC, Francisco Antonio Cadenas Collazzos, conhecido no Brasil mais como “Padre Medina" (esse que recebeu asilo político do Brasil), teria anunciado uma doação de 5 milhões de dólares do exército guerrilheiro para o PT, no dia 13 de abril de 2002, numa chácara localizada nos arredores de Brasília.

A denúncia provocou a abertura de uma CPI que foi presidida pelo Senador Cristovam Buarque (então ainda no PT), e durante a qual o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, confirmou a informação dada pela reportagem da VEJA, dizendo que, de fato, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) guardava em seus arquivos um documento que informava que as Farc planejavam dar 5 milhões de dólares à campanha do PT.
O auxílio financeiro aparecia no documento número 0095/3100, datado de 25 de abril de 2002 e classificado como "secreto". O general disse na CPI que a informação sobre a doação não foi levada a sério pela Abin, que a havia encarado como "um boato" e que, portanto, arquivara o documento. O general explicou ainda que catalogaram como “secreto” aquilo que não passava de “boato” para evitar o vazamento da informação e sua exploração eleitoral contra o então candidato oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva.

Entretanto, duas outras testemunhas do caso - um agente da Abin e seu ex-superior, o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira – disseram à Veja que, ao contrário do que disse o general Jorge Felix, a Abin não desprezou o conteúdo do documento. As investigações sobre a guerrilha colombiana, iniciadas em 2000, eram tratadas como assunto ultra-secreto. Para evitar vazamentos, os relatórios eram digitados no gabinete do então diretor de Inteligência, José Milton Campana (que no governo do PT acabou sendo promovido a diretor adjunto da Abin), onde, além dos diretamente envolvidos no caso, apenas um analista de informações e um assessor tinham acesso ao material. Segundo o Coronel, foram feitos três memoriais completos sobre o caso, que foram encaminhados diretamente à então diretora da Abin, Marisa Del'Isola.

A Abin em São Paulo obteve três ordens de pagamento, somando cerca de 1 milhão de dólares, com indícios de que se tratava de parte do dinheiro das Farc para o PT. Os indícios eram fortes, mas ainda não constituíam provas; porém, a investigação parou quando o PT ganhou as eleições.

O coronel, de 49 anos, trabalhou por sete anos na Abin e deixou o posto em julho de 2003, por causa de divergências em relação à condução do caso Farc. Hoje, ele dirige o departamento de inativos e pensionistas da Polícia Militar do DF. O coronel sempre esteve ligado à área de informações. Pertenceu ao Centro de Informações do Exército e chefiou o serviço de inteligência da PM do DF.

No dia 17 de Março de 2005, o senador Cristovam Buarque deu por encerrada a CPI que investigava a denúncia da susposta doação das Farc para o PT. A Comissão ficou satisfeita com as explicações dos responsáveis pela Abin: o General Jorge Félix e o diretor Mauro Marcelo. As investigações, entretanto, não levaram em consideração os testemunhos de agente da Abin e do seu ex-superior, o Coronel Eduardo Adolfo Ferreira, apesar de os dois terem corroborado a história publicada pela revista Veja.

O diretor adjunto da Abin, Mauro Marcelo, acabou vindo a renunciar ao cargo em meio à crise do mensalão, quando a Abin foi acusada pelo ex-deputado Roberto Jefferson de ter sido usada pelo Ministério da Casa Civil, sob o comando do então Ministro José Dirceu, para colher informações que poderiam ser usadas como material de extorsão ou perseguição. Prática, aliás, que veio a atingir o seu ápice, quando o caseiro Francenildo teve sua conta bancária e sua vida ilegalmente devassadas sob as ordens de gente poderosa dentro do governo.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

PÔR FIM AO GOVERNO LULA

Roberto Mangabeira Unger

AFIRMO que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.

Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.

Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.

Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.

Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.

Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.

Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.

Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.


Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas."

ROBERTO MANGABEIRA UNGER


Roberto Mangabeira Unger é carioca. Não parece, nem pelo sotaque de norte-americano falando português nem pelo, digamos, ‘jeitinho sisudo’, mas ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, filho de mãe brasileira, a poeta e jornalista Edyla Mangabeira, e de pai alemão, o advogado Artur Unger, que era naturalizado estadunidense. Aos quatro meses de idade foi morar com a família em Nova York, onde viveu até os 11 anos, quando seu pai faleceu de infarto fulminante, em 1959. Nos EUA, em casa, Unger e sua irmã falavam inglês. Português, só eventualmente, com uma ou outra empregada da família que era brasileira ou portuguesa. Entretanto, nas férias de verão, Roberto vinha ao Brasil, onde ficava com seu avô, o político baiano Otávio Mangabeira que foi ministro das Relações Exteriores no governo Washington Luís (1926-1930), governador da Bahia e senador pela Bahia – período durante o qual morava no Rio de Janeiro.

Depois da morte do pai, Roberto Mangabeira Unger volta ao Brasil e, dez anos mais tarde, em 1969, formou-se em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dizem que, por estar sendo espionado pelo governo militar, em 1971, Unger voltou aos EUA e, no mesmo ano, então, tornou-se o mais jovem professor contratado pela Universidade Harvard, aos 22 anos e, depois, aos 25 anos, também, o mais jovem professor titular, na história daquela universidade, onde leciona Filosofia do Direito.
Em 1977, licenciou-se de Harvard e veio ao Brasil para iniciar seu projeto de trajetória política. Ao lado de Ulysses Guimarães, participou da fundação do PMDB. Mais tarde, em 1982, filiou-se ao PDT e, nas eleições presidenciais de 1989, trabalhou na campanha de Leonel Brizola. Chegou a ser candidato a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro, em 1990, quando obteve apenas 9 mil votos e não conseguiu ser eleito. Nas eleições de 1994, colaborou novamente com a campanha de Brizola.

Entre as campanhas e empreendimentos políticos, Unger acabava sempre retornando à vida acadêmica, em Harvard. Em meados de 1997, Mangabeira Unger decide mudar-se ‘de mala e cuia’ para o Brasil, indo residir em São Paulo, com sua mulher Tamara Lothian, uma americana, e seus quatro filhos, ainda em idade escolar. Os meninos foram para uma escola americana e Unger, já defiliado do PDT, foi trabalhar um escritório de advocacia, enquanto se preparava para colaborar na campanha presidencial do candidato Ciro Gomes, então no PPS, em 1998.

Mangabeira largara, mais uma vez, com licença não remunerada, um emprego estável de professor em Harvard, onde lecionava havia 28 anos, e que lhe dava estabilidade e salário na faixa de 150.000 dólares por ano.

Na disputa presidencial de 2002, continuou apoiando Ciro Gomes. No início daquele ano, Mangabeira havia se lançado pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, mas o professor foi acusado de comprar votos (o que ele nega) e não deu certo.

Com a vitória de Lula, naquele ano, Mangabeira, de volta ao circuito Harvard-Brasil se tornaria um dos mais severos críticos do governo.

Nesse meio tempo, também ganhava a vida como consultor da Brasil Telecom entre 2002 e 2005, e, por essa função, recebeu US$ 1,176 milhão, sem contar despesas de hospedagem, de refeição, do aluguel de um apartamento no Rio e de passagens aéreas, nos anos de 2003, 2004 e 2005. Nesse período, a Brasil Telecom também pagou US$ 675 mil ao "trust" administrado por Mangabeira. Em 2006, a nova administração da BrT via vários problemas na atuação de Unger. Em primeiro lugar, o fato de, apesar de contratado como consultor, não ter sido encontrado na empresa nenhum trabalho elaborado por ele, e, em segundo, porque, apesar de ser contratado da empresa de telefonia, havia indícios de que, como "trustee", Mangabeira tenha atuado para defender interesses não da Brasil Telecom mas do grupo Opportunity. O indício seria o fato de ele não ter se pronunciado, até aquela ocasião, em relação à extinção das ações judiciais da BrT contra a Telecom Itália, pelo que o Opportunity teria recebido US$ 65 milhões, e que ocorreu logo depois de o Opportunity ter firmado, em 28 de abril de 2005, acordo com a Telecom Italia para tentar transferir o controle da BrT aos italianos. Em janeiro de 2006, ele declarou que nunca tomou ou tomará medidas para beneficiar o grupo Opportunity em detrimento da Brasil Telecom.

Voltando à polícia, em 2005, chegou a se lançar pré-candidato à Presidência da República, para as eleições de 2006. Foi à TV no horário político do nanico PHS e ganhou, inclusive, a adesão de Caetano Veloso, que o definiu como um “aventureiro do bem” http://www.youtube.com/watch?v=pwGnWjEpngo. Ele chegou a sonhar em se tornar o presidenciável oficial do PDT de Brizola. Mas, este veio a falecer em 2004 e os planos de Mangabeira não deram certo.

Depois disso, Mangabeira ajudou a fundar o PRB (Partido Republicano Brasileiro), do qual é vice-presidente nacional. Em elaboração desde 2003, o registro definitivo foi emitido em 25 de agosto de 2005. O partido é o centro de polêmica, por suspeita de que tenha arranjado assinaturas para fundação dentro da Igreja Universal do Reino de Deus e também por ser acusado de querer reunir todos os parlamentares evangélicos numa única bancada. Mangabeira Unger é ateu – tudo a ver com o partido...

Finalmente, em junho de 2007, Roberto Mangabeira Unger conseguiu, depois de 30 anos de tentativas frustradas, um posto no governo do país, ao aceitar o cargo de ministro para assuntos estratégicos no governo de Lula da Silva, que qualificara de o ‘mais corrupto da história desse país’. Mais uma vez, larga seu emprego muitíssimo bem remunerado, em Harvard, desta vez pelo trabalho no governo, que lhe rende cerca de R$ 10 mil, brutos, por mês.

A família? Esta já voltou para os EUA faz tempo. Hoje, sua esposa Tamara leciona direito e finanças na Universidade de Columbia; seu filho mais velho freqüenta Harvard, e seus outros três filhos estão em internatos nos Estados Unidos.

Mangabeira assumiu o ministério em 2007. À época, consultou a Comissão de Ética Pública da Presidência para saber se poderia acumular o cargo no governo com a atuação de "trustee" da BrT. A comissão respondeu negativamente. Em julho, Mangabeira enviou ao Jornal Folha de São Paulo uma carta em que afirmava ter renunciado, em "caráter irrevogável e irretratável, sem qualquer condição", ao cargo de "trustee" da Brasil Telecom (Mangabeira Unger é pressionado a desistir de nomeação).

Hoje, as investigações da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, apontam que as investidas do grupo Opportunity, do economista Daniel Dantas, na região Amazônica, podem ter recebido uma ajuda de peso de Roberto Mangabeira Unger, como figura fundamental nos projetos de mineração e agronegócio – nova aposta de investimentos do grupo –, principalmente no Pará (http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=23498). O ministro nega.

domingo, 27 de julho de 2008

A LINHA MAGINOT






O dia 10 de Maio de 1940 marca o ataque alemão contra os aliados ocidentais. O objetivo é atacar a França e as forças expedicionárias britânicas que se encontram a norte. Mas em vez de atacar diretamente o território francês, os alemães vão evitar a linha Maginot, atacando diretamente a Bélgica e penetrando na floresta das Ardenas, que era vista pelos aliados como uma floresta densa e impenetrável, onde as estreitas estradas impediam (achavam os generais franceses) a operação de forças inimigas.

A linha Maginot

Durante os anos 30, a França tinha assumido um posicionamento completamente defensivo relativamente à Alemanha e isso levou a construção de uma impressionante e caríssima linha de defesas, conhecida pelo nome do Homem que a promoveu, Andre Maginot.


Maginot era um político francês, cuja desconfiança da Alemanha cresceu com o tempo. É ele que dirige a faz pressão política para que a França construa a linha de defesa na fronteira entre os dois países, linha que será aprovada pelo orçamento francês de 1930. A linha Maginot defenderia a França da Alemanha, e, além disso, por estar construída na Alsácia Lorena, garantiria que aquela parte do território não mais cairia em mãos alemãs.

A linha Maginot era uma linha defensiva poderosíssima, mas foi construída desde a fronteira suíça para até norte, chegando apenas ao ponto em que se juntam as fronteiras da França da Alemanha e da Bélgica e Luxemburgo.

Durante os anos 30, ocorreram negociações entre franceses e belgas, sobre a possibilidade de construir defesas comuns a belgas e franceses, prolongando a linha Maginot pela Bélgica integrando as fortalezas belgas da linha Namur-Liege-Antuérpia, mas problemas políticos, especialmente o receio belga de afrontar a Alemanha levaram a atrasos nas negociações. Os franceses optaram então por prosseguir a sua linha defensiva entre a fronteira belga e francesa, mas essa linha, cuja construção sofreu atrasos, nunca atingiu o nível de eficácia da linha fortificada que separava a Alemanha da França.

A 10 de Maio de 1940, a Alemanha efetua uma operação relâmpago, destinada a ultrapassar o problema levantado pela linha Maginot. Embora ocorressem ataques diretos sobre a linha, o principal ataque alemão ocorreu imediatamente a norte do sector onde terminava a parte mais fortificada da linha Maginot e onde tinha inicio a linha ainda pouco fortificada cuja construção tinha sido iniciada demasiado tarde.

Os belgas, que tinham tentado manter a sua neutralidade, são fortemente atacados, exatamente naquele que consideravam ser o seu mais importante ponto defensivo, o forte de Eben-Emael, construído entre 1932 e 1935, com características idênticas aos fortes de linha Maginot. O forte estava preparado para se defender de infantaria e veículos, numa guerra de trincheiras, mas tinha uma única arma antiaérea. Um ataque de pára-quedistas alemães toma no primeiro dia do ataque, o mais importante ponto de defesa.

A Holanda foi igualmente atacada por grande número de forças aerotransportadas, que agindo na retaguarda, provocaram um caos completo quer entre holandeses quer entre belgas. Mas quer a Bélgica quer a Holanda não foram atacadas por grandes unidades blindadas alemãs, as quais estavam secretamente na região das Ardenas.

Portanto, as operações contra a Holanda e o ataque a Eben-Emael foram operações secundárias, dado que o grosso das tropas alemãs, estão no sector central e avançam com especial vigor na região das Ardenas, julgada uma floresta intransponível, e defendida apenas por tropas de segunda linha.

Enquanto que as forças francesas e as duas divisões britânicas a norte, avançam para apoiar a defesa da Bélgica, mais a sul, os alemães, atravessando as Ardenas, vão aparecer em Sedam.

Em apenas três dias, as tropas alemãs, com as divisões Panzer à cabeça, ultrapassam a linha de florestas das Ardenas, atingindo o rio Mosa (Mosel) a 13 de Maio. Quando isso acontece, e as notícias chegam a Paris de que os alemães conseguiram chegar à cidade de Sedan a 15 de Maio, é o pânico nas estradas francesas. Atingindo Sedan, as velozes unidades blindadas alemãs inflectem para norte, com o objetivo de cortar em dois as forças aliadas. O novo primeiro ministro da França telefona de urgência a Churchil e comunica-lhe que a frente foi quebrada. Pede aos britânicos que enviem mais reforços e especialmente aeronaves para tentar reduzir a supremacia aérea dos alemães, mas os britânicos recusam engajar na luta as suas reservas de caças, temendo que viessem a fazer falta mais tarde para defender a própria Grã Bretanha.

Os britânicos, porém, continuarão a enviar tropas para França, pois até Junho ainda vão enviar mais uma divisão para território francês.

Os reforços britânicos não vão servir de muito. Os franceses não conseguem evitar o avanço dos blindados alemães para norte até ao canal da mancha.

Em 20 de Maio, apenas 10 dias depois do inicio da operação, as tropas avançadas das divisões blindadas do general Guderian atingem o canal.

As divisões britânicas e parte do exército francês estão agora isoladas do resto das forças francesas.

A 21 de Maio os britânicos e franceses tentam cortar o cerco atacando em Arras e Cambrai, numa operação arriscada que por sua vez poderia (se tivesse sucesso) cortar os abastecimentos das linhas avançadas alemãs.

Sem conseguir resistir as forças aliadas retiram para Dunquerque a 26.A 28 de Maio 350.000 homens estão cercados em Dunquerque pelos alemães, aguardando evacuação.

A artilharia britânica utiliza todas as suas munições disponíveis para impedir o avanço alemão. Na Grã Bretanha é feito um apelo a todos os pescadores e a todos os donos de qualquer coisa que flutue, para que façam pelo menos uma viagem até às costas de Dunquerque para evacuar soldados.

Os alemães estão também desorganizados, os seus avanços ocorreram em toda a linha e necessitam tempo para evitar que as suas próprias linhas de abastecimento entrem em colapso. Esses dias de reorganização serão vitais.

Entre 28 de Maio e 4 de Junho, são evacuados 300.000 homens. Só no dia 31 de Maio são evacuados 68.104 soldados. Em 1 e 2 de Junho, com as forças reorganizadas, a artilharia e a força aérea alemãs atacam furiosamente as praias de Duquerque. A 4 de Junho, o contratorpedeiro Shikari, abandona a praia, com as últimas forças evacuadas. A 10 de Junho a Itália declara guerra à França.

A evacuação das forças britânicas, e a recusa destes em enviar mais aviões da R.A.F. para tentar combater a Luftwaffe, têm um peso psicológico tremendo. Os franceses acham-se traídos e abandonados pelos britânicos. No entanto, desde a retirada de Dunquerque até ao armistício, continuarão a luta contra os alemães e resistirão ainda às tentativas de avanço de quatro exércitos italianos.




A Linha Maginot (francês ligne Maginot) foi uma linha de fortificações e de defesa construída pela França ao longo de suas fronteiras com a Alemanha e a Itália, após a Primeira Guerra Mundial, mais precisamente entre 1930 e 1936.

O termo linha Maginot designa às vezes o sistema inteiro, e às vezes unicamente as defesas contra a Alemanha. As defesas contra a Itália são chamadas linha Alpina.

O complexo de defesa possuía várias vias subterrâneas, obstáculos, baterias blindadas escalonadas em profundidade, postos de observação com abóbadas blindadas e paióis de munições a grande profundidade.

O primeiro a propor a construção de um sistema de defesa ao longo da fronteira alemã foi o Marechal Joffre em 1927. O princípio da linha Maginot, batizada com o nome do ministro da Defesa francês André Maginot (1877-1932), veterano mutilado da guerra de 1914-1918, foi debatido na França durante quase 10 anos pelo Conselho Superior de Guerra, sob a presidência do marechal Pétain. Os planos definitivos foram aprovados em 1929 por Paul Painlevé, então ministro da Guerra.

Neste mesmo ano, o Parlamento votou um primeiro financiamento de mais de 1 bilhão de francos franceses, e os trabalhos começaram em 1930. Os trabalhos foram realizados pela STG (Section Technique du Génie), sob a supervisão da CORF (Commission d'Organisation des Régions Fortifiées). Maginot tornou-se ministro da Guerra em 1929 e foi um ardente defensor da fortificação, mas morreu de intoxicação alimentar por ostras em 1932 e jamais pôde ver realizado seu grande sonho de defesa.

A maior parte dos trabalhos estava terminada em 1936, no momento em que a ameaça hitlerista parecia lhe dar toda a justificação de que precisava: era a mais formidável linha defensiva militar jamais construída no mundo, e era de grande complexidade tecnológica e militar. Seu custo total foi de 5 bilhões de FF (da época). Planejada durante a década de 20, a linha Maginot foi pensada para "guerra de trincheiras". Com suprimentos próprios de energia, munição e alimentos, a linha era uma série de fortalezas e estruturas interligadas, paralela à fronteira franco-germânica. Era composta de 108 edificações principais (fortes) a 15 km de distância uns dos outros, mais edificações menores e casamatas, e mais de 100 km de galerias.

O ataque alemão

A linha Maginot não evitou a derrota da França no início da II Guerra Mundial em 1940, na medida em que as divisões alemãs a contornaram atacando a região de Sedan, além da sua extremidade oeste. Os exércitos aliados foram, assim, cortados ao meio: uma parte das tropas francesas, inglesas e belgas foram cercadas e empurradas até as praias de Dunquerque, para onde os britânicos enviaram centenas de embarcações para recuperar os soldados presos nessa armadilha, no que ficou conhecido como a Operação Dínamo. As tropas do leste e regimentos dispostos atrás da linha ficaram presos entre a fronteira alemã e as divisões mecanizadas alemãs, que haviam alcançado a fronteira suíça.

No início de junho as forças alemãs já haviam isolado a linha do resto da França, e o governo francês já dava sinais que aceitaria um armistício, que foi assinado em 22 de junho em Compiègne. Mas a linha ainda estava intacta e ocupada por um número considerável de oficiais desejando manter a posição e continuar a guerra; o avanço italiano foi contido com sucesso. Ainda assim, Maxime Weygand assinou a rendição e as tropas foram feitas prisioneiras.

Um erro estratégico

A principal razão para a falha da linha Maginot é o fato de não se estender até ao Mar do Norte. Por diversas razões, entre as quais a falta de tempo e de financiamento, a sua construção foi interrompida a 20 km a leste de Sedan, em Montmédy, fazendo face à fronteira alemã, ao Grão-Ducado de Luxemburgo e a uma parte da fronteira franco-belga. O segmento Longuyon-Lauterbourg era particularmente reforçado, com edificações equipadas de artilharia pesada, enquanto que as defesas do Reno e a oeste de Longuyon eram menos fortes. Certas partes não haviam recebido o equipamento que lhes era destinado no momento da declaração da guerra. Além disso, a neutralidade da Bélgica confortava os argumentos daqueles que não acreditavam em uma ofensiva inimiga a oeste da linha Maginot.

Foi assim que se desenvolveu um sentimento de segurança com a linha Maginot, onde praticamente cada francês estava convencido de que estava protegido de toda agressão alemã. No entanto, era preciso ser ingênuo ou incompetente para imaginar que a linha pudesse resistir suficientemente a um ataque violento e localizado, apoiado pela artilharia pesada e pela aviação moderna. Sem contar com a tática alemã do Blitzkrieg e de contornamento da linha pelas Ardenas. No pior dos casos, a linha poderia conter um ataque surpresa frontal durante o tempo necessário à França para organizar uma mobilização geral.

Neste contexto, os pedidos ansiosos do general De Gaulle e de Paul Reynaud em 1935 em favor do desenvolvimento de divisões blindadas para assegurar a defesa do território não coberto pela linha Maginot faziam sentido, mas não foram ouvidos. O general Maurin, então ministro da Guerra, durante um debate no Parlamento, respondeu a Paul Reynaud : « Como se pode ainda pensar em termos de ofensiva quando gastaram-se bilhões para estabelecer uma fronteira fortificada ? »
No dia seguinte a essa brilhante declaração, Hitler rasgava simbolicamente o tratado de Versalhes e instituía a conscrição compulsória para 500 000 homens.

A linha depois da II Guerra Mundial

Após a guerra, a linha foi novamente ocupada pelos franceses e beneficiou de algumas modificações. Entretanto, quando a França se retirou da OTAN (em 1966), grande parte das fortificações foram abandonadas. Com o crescimento do política nuclear independente francesa em 1969, a linha foi abandonada pelo governo, com seções postas em leilão público e o resto abandonado.

O termo "Linha Maginot" tem sido usado como metáfora para algo em que se confia apesar da sua ineficiência. Na verdade, ela fez exatamente aquilo para o qual fora planejada, protegendo uma parte da França e forçando o agressor a contorná-la (e os poucos fortes da linha Maginot que foram atacados pelos alemães resistiram muito bem). Como planejada inicialmente, a linha Maginot era parte de um largo plano de defesa, no qual os agressores deveriam encontrar tropas de resistência francesas, mas o planejamento falhou estrondosamente, fazendo com que a linha perdesse completamente sua razão de ser.

Hoje em dia, associações voluntárias restauraram grandes setores da linha, abrindo-a à visitação pública, o que atrai muitos turistas à região. Passear pelos túneis e visitar os quilômetros de galerias, fortificações e as diversas dependências (quartos de dormir, cozinhas, enfermarias, arsenais, linhas férreas, etc) é uma experiência enriquecedora.